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ASAE e outros polícias de costumes

Nov. 28th, 2007 | 06:58 pm

A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da “fast food”, para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e “petiscos”, a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.
A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.
Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta “produto não válido”, mesmo que esteja vazia.
Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.
As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.

Por António Barreto, no Público de 25 de Novembro de 2007, via www.sorumbatico.blogspot.com

Escusado será dizer que subscrevo 99% do que aqui está dito.

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Boa política

Mar. 8th, 2007 | 05:46 pm

O nosso PM, que deve ser um admirador confesso daquele rapaz americano que faz documentários "científicos" e palestras ambientais a 35 mil contos a peça, acha que a boa política voltou à Europa - depois de quioto, vêm aí diminuições ainda mais substanciais de emissões de CO2 na Europa. E acentue-se - na europa.

É que se há coisa fácil de fazer é reduzir as emissões de CO2 na Europa, e que é panaceia para tudo e mais alguma coisa - aumentar impostos e aumentar presrtações sociais. E é isso mesmo que vão fazer, porque não há nada que a população valorize tão pouco mas simultaneamente porque não esteja disposta a pagar mais que o ambiente.

Claro que não vale a pena explicar-lhes que o efeito prático das medidas que vão implementar vai provocar um aumento da poluição global, até porque o objectivo tem pouco a ver com a poluição, é mais sacar impostos.

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Esquizofrenia

Feb. 1st, 2007 | 05:05 pm
mood: confused confused

No campo da reprodução medicamente assistida os pais não podem, sem mais, decidir pela eliminação dos embriões. Há regras. Porém, depois de implantado, e se vingar o “Sim”, tudo se alterará, sendo soberana a opção da mãe, sem qualquer condicionalismo.

A dignidade humana do embrião, neste contexto legal, sai valorizada quando este seja congelado, diluindo-se, regredindo no útero materno. O legislador parece-me sofrer de alguma esquizofrenia, mas enfim

in www.blueloungecafe.blogspot.com

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(no subject)

Nov. 17th, 2006 | 10:36 am

"There are four ways in which you can spend money. You can spend your own money on yourself. When you do that, why then you really watch out what you’re doing, and you try to get the most for your money. Then you can spend your own money on somebody else. For example, I buy a birthday present for someone. Well, then I’m not so careful about the content of the present, but I’m very careful about the cost. Then, I can spend somebody else’s money on myself. And if I spend somebody else’s money on myself, then I’m sure going to have a good lunch! Finally, I can spend somebody else’s money on somebody else. And if I spend somebody else’s money on somebody else, I’m not concerned about how much it is, and I’m not concerned about what I get. And that’s government. And that’s close to 40% of our national income. " Milton Friedman

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Referendo

Nov. 6th, 2006 | 07:27 pm

Alguém me sabe explicar, em relação ao referendo sobre o aborto, o porquê do limite das 10 semanas? Porque não 12, ou 8, ou 26, ou atém mesmo 40? Há alguma razão técnica ou foi um poliqueiro qualquer que atirou o número ao ar?

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(no subject)

Aug. 21st, 2006 | 01:19 pm

Well, the neighborhood bully, he’s just one man,
His enemies say he’s on their land.
They got him outnumbered about a million to one,
He got no place to escape to, no place to run.
He’s the neighborhood bully.

The neighborhood bully just lives to survive,
He’s criticized and condemned for being alive.
He’s not supposed to fight back, he’s supposed to have thick skin,
He’s supposed to lay down and die when his door is kicked in.
He’s the neighborhood bully.

The neighborhood bully been driven out of every land,
He’s wandered the earth an exiled man.
Seen his family scattered, his people hounded and torn,
He’s always on trial for just being born.
He’s the neighborhood bully.

Well, he knocked out a lynch mob, he was criticized,
Old women condemned him, said he should apologize.
Then he destroyed a bomb factory, nobody was glad.
The bombs were meant for him.
He was supposed to feel bad.
He’s the neighborhood bully.

Well, the chances are against it and the odds are slim
That he’ll live by the rules that the world makes for him,
‘Cause there’s a noose at his neck and a gun at his back
And a license to kill him is given out to every maniac.
He’s the neighborhood bully.

He got no allies to really speak of.
What he gets he must pay for, he don’t get it out of love.
He buys obsolete weapons and he won’t be denied
But no one sends flesh and blood to fight by his side.
He’s the neighborhood bully.

Well, he’s surrounded by pacifists who all want peace,
They pray for it nightly that the bloodshed must cease.
Now, they wouldn’t hurt a fly.
To hurt one they would weep.
They lay and they wait for this bully to fall asleep.
He’s the neighborhood bully.

Every empire that’s enslaved him is gone,
Egypt and Rome, even the great Babylon.
He’s made a garden of paradise in the desert sand,
In bed with nobody, under no one’s command.
He’s the neighborhood bully.

Now his holiest books have been trampled upon,
No contract he signed was worth what it was written on.
He took the crumbs of the world and he turned it into wealth,
Took sickness and disease and he turned it into health.
He’s the neighborhood bully.

What’s anybody indebted to him for?
Nothin’, they say.
He just likes to cause war.
Pride and prejudice and superstition indeed,
They wait for this bully like a dog waits to feed.
He’s the neighborhood bully.

What has he done to wear so many scars?
Does he change the course of rivers?
Does he pollute the moon and stars?
Neighborhood bully, standing on the hill,
Running out the clock, time standing still,
Neighborhood bully.

Bob Dylan-1981

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Decretos

Aug. 8th, 2006 | 06:40 pm
mood: nauseated nauseated

Foi promulgada uma das mais insultuosas e ridículas leis de que há memória em Portugal - a lei da paridade. A cretinice começa logo pelo nome: paridade significa igualdade, mas as mulheres só terão direito a um terço dos lugares nas listas dos partidos, o que significa que não há paridade nenhuma. Há uma indicação clara dos políticos que as mulheres valem metade dos homens. Porquê 33% e não 50%, a verdadeira paridade?

Esta lei provoca um total desrespeito pelas futuras deputadas, já que ficarão sempre com uma marca - a marca de terem ascendido à deputação por decreto, e não por mérito - faz-me lembrar o respeito que é votado nas empresas às pessoas que se diz que "sobem na horizontal". Aqui a coisa é pior, porque a subida na horizontal sempre pressupõe algum mérito, mesmo que não directamente relacionado com a função que exercem, enquanto que na deputação nem esse mérito é reconhecido às deputadas - deputam porque os partidos foram coagidos a coloca-las na lista.

Depois, esta lei encerra princípios totalmente absurdos e que não deveriam ter lugar no séc. XXI - o princípio da discriminação sexual. Daqui a uns anos, com a disparidade sexual que existe hoje no ensino superior, haverá muito mais mulheres em postos de comando nas empresas do que homens - no meu departamento, por exemplo, a chefe máxima é uma mulher e na direcção existem três mulheres e um homem. Na coordenação das equipas existe apenas um homem. Isto vai, obviamente, reflectir-se também na política, porque a distribuição sexual da maioria das profissões intelectuais tende cada vez mais a seguir uma distribuição normal.

Mas as brigadas do politicamente correcto não podiam esperar - tinham que impor a sua tremenda estupidez a toda a sociedade e passar para o papel (estes tipos do politicamente correcto pelam-se por papel) os seus preconceitos e os seus complexos de inferioridade. Chegará o dia em que as listas a deputados terão que ter x% de homossexuais, y% de deficientes, z% de outra coisa qualquer, até que a escolha dos cidadãos não seja já uma escolha, mas apenas um procedimento burocrático.

E o que mais me custa é que o Cavaco tenha promulgado a coisa. É que eu quebrei uma regra que mantinha desde sempre - não votar para a presidência da república - por achar que o Aníbal ia refrear este tipo de cretinice e não ia nestas cantigas. Enfim, viver e aprender - não volto tão cedo às urnas, graças a Deus.

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Bom senso

May. 23rd, 2006 | 06:17 pm

Parece que o Canadá vai mandar Quioto às malvas. Finalmente o bom senso começa a prevalecer. Claro que pela politicamente correcta Europa seremos os últimos a sair, mas enfim, quanto mais depressa melhor.

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Funcionalismo

May. 2nd, 2006 | 07:00 pm

Hoje ouvi pela primeira vez na minha já longa (longuíssima, parece-me a mim) vida profissional: "Ó meu amigo, eu saio às cinco, por isso se tiver tempo, vou lá, se não tiver fica para amanhã". Eu não lhe estava a pedir nada de especial, apenas que resolvesse a merda que tinha feito.

É extraordinário que esta cultura de funcionalismo ainda não tenha terminado neste país.

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(no subject)

Apr. 20th, 2006 | 03:49 pm

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(no subject)

Apr. 7th, 2006 | 06:20 pm

Morte
1936 - Rudyard Kipling - escritor inglês

Nascimentos
399 - Pulquéria - Imperatriz Bizantina
1983 - Utada Hikaru - who the f... - cantora japonesa

Acontecimentos
1803 - Editado decreto que autoriza a povoação da região de Cubatão.
1949 - O salário do Presidente dos Estados Unidos da América é reajustado em US$ 100.000 anuais
2000 - A prática do topless é liberada formalmente pela Secretaria de Segurança da cidade do Rio de Janeiro.


Uma irrelevância de um dia. Safa-se a importantíssima questão do topless no Rio. Vá lá. E também gosto de saber que Pulquéria, de Bizâncio, nasceu no mesmo dia que eu.
É feriado na Etiópia.

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Boas notícias

Mar. 13th, 2006 | 05:15 pm

OPA hostil da Sonae sobre a PT
OPA hostil do BCP sobre o BPI

O Capitalismo avança, Graças a Deus.

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A Esquerda

Mar. 2nd, 2006 | 03:57 pm

O texto fala por si, e fala por muitas das pessoas que conheço que pertencem à esquerda, e quanto mais radical a esquerda a que pertencem, mais o texto fala por elas. Eu, perante isto, fico sem palavras. (Destaques meus).

Já era de esquerda antes de alguma vez ter ouvido sequer falar a sério em Marx ou em comunismo (na escola, na disciplina de História). Enquanto o Bloco de Leste se desfazia, a URSS agonizava e o Muro de Berlim estava prestes a cair. Entretanto eu estudava a organização interna do PCUS, o modelo leninista, Estaline e Krutchov, e a perestroika de Gorbatchov era referida no meu livro de História como uma "tentativa de abertura em relação à sociedade". O mundo organizava-se em dois blocos, que eram tratados da mesma forma pela generalidade da comunicação social (ambos sujeitos a críticas).
Não precisei de ler Marx para nessa altura formar o essencial da minha consciência política. Sendo filho de trabalhadores por conta de outrem, já achava na altura que os trabalhadores deveriam saber dirigir os meios de produção, e não uma elite improdutiva. E sempre me escandalizou como os comerciantes poderiam decidir vender os bens de consumo aos preços que bem lhes apetecesse, sem controlo. O preço destes bens deveria ser fixado pelo governo, e deveria ser tal que os tornasse acessíveis a todos os trabalhadores, de modo a que tods pudessem viver com dignidade. Da mesma forma, o governo deveria combater o desemprego com todos os meios possíveis, adaptando a carga horária laboral de modo a haver trabalho e pão para todos.
Era este o meu pensamento político quando tinha treze, quinze, dezoito anos (e no essencial, no ideal, é-o ainda hoje). Nunca li Marx ou qualquer outro dos seus seguidores para o formar, não acho que ele resulte da minha educação na escola pública (independente e não tendenciosa) ou privada (andei num externato católico até aos dez anos). Pode ter resultado de ter lido o romance Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, na disciplina de Português no oitavo ano (admito que o livro me marcou bastante). Mas no essencial estas minhas ideias resultam, tanto no meu caso como na maior parte das pessoas, da experiência de vida e do senso comum.
Também da minha experiência de vida, aliada a estas minhas convicções, resultou que a direita era "o mal". Uma paixão arrebatadora por uma miúda do PCP aos catorze anos (que será feito dela?) ajudou e muito, bem como o facto de todos os meus amigos e amigas da escola e dos dois primeiros anos da faculdade serem naturalmente de esquerda. Digo "naturalmente" porque não os "escolhia" devido ao seu posicionamento ideológico; eram mesmo naturalmente meus amigos. Mas há que acrescentar que era de Lisboa, estudei numa escola "de esquerda" (D. Pedro V - foi classificada assim num suplemento de O Independente), cuja Associação de Estudantes liderou a contestação nacional à PGA (luta em que eu também participei, o que constituiu a minha estreia no combate político). Depois, fui aluno da LEFT, e os alunos de direita da LEFT contavam-se pelos dedos de um pé.
Ser-se de direita era assim para mim, na minha adolescência, o pior de todos os defeitos que uma pessoa poderia ter.
É claro que as pessoas mais velhas (de direita e não só) dizem que nestas idades "ainda não se sabe o que é a vida", e têm toda a razão. Não que eu agora saiba o que é "a vida", mas pelo menos já vivi muito mais do que o estudante que vivia à custa dos pais, sem ter de se preocupar com nada. E é ao viver à sua custa que um tipo se apercebe de como pode uma pessoa não ser de esquerda, particularmente um trabalhador. Esta é uma realidade que eu na altura achava completamente inaceitável, que não entrava na minha cabeça. Ainda hoje custa-me a aceitar, mas creio que já compreendo melhor. Simplesmente, o comunismo por si só não foi feito para maximizar a riqueza, e muitas pessoas se calhar preferem mesmo ser exploradas, desde que no resultado final acabem por ganhar mais do que se não o fossem.[??????] Eu mesmo tenho de reconhecer que na maior parte das vezes economias baseadas no mercado livre e na concorrência geram trabalhadores mais motivados e maior prosperidade que as economias puramente estatizadas. Finalmente, muitas vezes as pessoas preferem ser simplesmente alienadas. Não querem saber. É essa a opção delas; são mais felizes assim.
Acresce a esta minha "maior experiência" uma outra forma de encarar os Estados Unidos da América. Depois do colapso da URSS os EUA, a superpotência restante, vencedora da guerra fria, eram para mim aquilo que para um dos seus presidentes (Ronald Reagan) era a URSS: o Império do Mal, o grande adversário. Durante a licenciatura fui-me habituando a estudar por livros que, em grande parte dos casos, tinham de ser norte-americanos. Aprendi assuntos que tinham sido descobertos por norte-americanos. Finalmente acabei mesmo por ir estudar para os EUA. Lá vivi uma boa parte (mais do que boa, feliz) da minha ainda relativamente curta vida. Lá conheci pessoas excelentes, das mais diversas proveniências e nacionalidades. Conheci mesmo americanos - bem diferentes do estereótipo usual. E lá estava quando se deram os atentados de 11 de Setembro de 2001, que vieram confirmar, se necessário fosse, que a maldade no mundo está longe de ser em exclusivo da responsabilidade dos EUA. Mais: veio demonstrar que nem todas as maldades são igualmente más, e que a maldade americana nem é a pior e, em certas circunstâncias em que só se pode optar entre maldades, é a maldade preferível.
Por todos estes motivos acabei por mudar a minha opinião relativamente ao "ser-se de direita". Não me tornei de direita, e nem creio que alguma vez isso venha a ser possível.
Mas cheguei à conclusão de que, ao contrário do que eu pensava na inocência dos meus catorze anos, ser-se de direita não é o pior de todos os defeitos. Ser-se de direita, afinal, é algo que se tolera: é simplesmente mais um defeito como tantos outros.
Filipe Moura in
http://avesso-do-avesso.blogspot.com/2006/03/ser-se-de-direita.html

A confusão que vai nesta cabecinha, meu Deus.

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Arabismos

Feb. 3rd, 2006 | 06:52 pm

Ao que parece a comunidade árabe, um pouco por todo o lado, está a fazer um berreiro dos diabos porque um jornal Dinamarquês publicou uns cartoons com o profeta. Ao que parece, a religião muçulmana não permite a representação gráfica do profeta, e eles ficaram um bocadinhos nervosos - queimaram bandeiras da Dinamarca, retiraram produtos dinamarqueses dos super-mercados e, veja-se bem, alguns países mandaram chamar os embaixadores na Dinamarca.

Eu bem sei que a religião muçulmana é uma religião de paz e tolerância como o multi-culturalismo gosta de propagar, mas não parece um pouco exagerado? É que à nossa cultura faz tanta ou mais impressão que o pessoal se ande por aí a estoirar em pizzerias como à deles faz a representação do profeta, e não consta que se tenham mandado chamar embaixadores ou feito boicotes cada vez que suas excelências decidem exibir os seus dotes de pirotecnia. e fazem-no amiúde, diga-se.

Sendo assim, parece-me importante que se faça notar a essa cambada de fanáticos (de paz e tolerância) que na nossa terra os jornais publicam o que entenderem e as televisões passam os filmes que entenderem. Se houver reclamações, é no tribunal. Se na terra deles querem viver como selvagens, por mim, façam favor. Aqui as regras são nossas, e fazem o favor de se portar como gente.

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Aníbal

Jan. 23rd, 2006 | 12:12 pm

Uma volta (selectiva, por natureza) pelo LJ e pela blogosfera nesta manhã pós eleitoral deixa-me perplexo. Com excepção para os liberais (neo, ultra, o que quiser a esquerda graficamente mais rica e culturalmente mais pobre), que fazem uma crítica consistente ao pensamento político de Cavaco, as restantes críticas resumem-se ao seguinte:

1) Fraudes com o FSE - curiosamente os principais arguidos destas fraudes são um central sindical e destacados militantes do PS
2) O facto de não ter tido dificuldades financeiras por causa dos fundos vindos da CEE, mas, claro, não especificando nunca como é que isso o beneficiou, qual o impacto por exemplo, quando comparado com o das remessas de emigrantes, etc...
3) Come bolo rei com a boca aberta
4) É um saloio de Boliqueime
5) Come bolo rei com a boca aberta
6) A Maria é feia
7) Come bolo rei de boca aberta
8) É amigo do Dias Loureiro (o que não é verdade)
9) Come bolo rei de boca aberta
10) É rígido
11) Come bolo rei de boca aberta
12) Corta as unhas nas aulas
13) Parece um manequim da rua dos fanqueiros

Com estas críticas profundas da faixa do país com acesso à internet e que escreve em público, com estas fundamentações na escolha de um presidente da república, só se pode concluir uma coisa - Portugal é um estado inviável.

Nota: editado por indicação do guil
Nota2: editado novamente ao ler o thread da juliana_way

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Declaração de voto

Jan. 20th, 2006 | 12:37 pm

Aproveito o último dia oficial de campanha para fazer aqui a minha declaração de voto.

O meu voto não será, infelizmente, um voto entusiasmado e de convicção, mas antes um voto resignado à escolha de um mal menor. O quadro eleitoral nacional apresenta candidatos irrelevantes, candidatos péssimos e candidatos maus. Eu não queria o candidato perfeito, note-se, mas apenas um candidato bom.

Os camaradas que sonham ainda com os amanhãs que cantam, com a reforma agrária, que apreciam as democracias cubana e norte-coreana e que querem a nacionalização da banca e da grande indústria exploradora do proletariado, não estão no campeonato de presidência. Sejam o honesto Jerónimo, o patológico Garcia ou o vigarista encartado Louça, estão apenas a contar espingardas. Deixemo-los, portanto, no seu pequeno campeonatozinho de bairro.

Manuel Alegre é um dos péssimos candidatos. Além de não ter qualquer curriculum político relevante, tendo-se limitado a ocupar o lugar de deputado secundário na bancada socialista nos últimos trinta anos, berrando umas inanidades ocasionais contra o partido para que não pensássemos que era tão irrelevante como, na realidade é. Não se lhe conhece uma iniciativa legislativa relevante e ainda menos uma ideia minimamente consistente do que entende dever ser o país, fazendo assentar a sua candidatura exclusivamente na sua própria vitimização e no despeito. Tem a agravante de cada vez que abre a boca a asneira fluir sem travão.

Mário Soares, apesar de ter curriculum político, enferma de outros problemas, dos quais o menos grave se prende com a sua fraca resistência mental e que decorre da sua idade avançada. Ele está óptimo para a idade que tem, mas já se viu que a idade é limitadora, e mais se veria se não gozasse de uma escandalosa protecção por parte da imprensa. Mas a verdade é que, comparando com as suas restantes características, a idade é o menor dos problemas de Soares. O seu desprezo pela economia e pelo défice assenta no facto de Soares se sentir dono do país e do regime, não conseguindo interiorizar que o dinheiro do Estado não nasce de geração espontânea, antes é retirado coercivamente às pessoas que todos os dias vergam a mola no país. E essas pessoas merecem respeito, respeito que Soares não tem, nem nunca teve.

Depois, as ideias absurdas que Soares defende, como a cidadania global ou a alter-globalização, são cretinices sem qualquer sentido e sem qualquer aplicação prática ou possibilidade de implantação. São ideias e conceitos actualmente mais próximos do discurso do Bloco que do PS, ideias radicais em que [felizmente] já ninguém acredita.

Finalmente, ao longo da pré-campanha e da campanha eleitoral, Soares mostrou à saciedade aquilo que qualquer pessoa minimamente interessada em política já tinha percebido, tanto da sua campanha contra Sá Carneiro, como da sua prática em Macau e no segundo mandato como presidente – a sua personalidade nojenta e reles, associada a uma confrangedora ignorância e falta de educação.

Cavaco Silva possui igualmente curriculum político para o cargo, sendo o seu maior óbice o seu posicionamento político no centro esquerda, o facto de ser um social democrata puro e duro, que acredita piamente no Estado providência e na necessidade de intervenção do Estado na economia de forma arbitrária e, a maior parte das vezes, abusiva. Ou seja, Cavaco não vai desencadear a reforma que Portugal necessita para crescer e enriquecer. É, por isso, um mau candidato.

Mas Cavaco possui a vantagem de compreender os mecanismos que regulam a economia, compreende o que é a competitividade e sabe que o défice significa apenas um aumento da carga fiscal no futuro. Assim, Cavaco, não sendo o homem que mudará o país, será pelo menos o único que será capaz de conter os estragos da social democracia, impedindo que os eventuais excessos desta derretam definitivamente o país.

No fundo, Cavaco é ideologicamente semelhante ao Soares de 1985, antes da deriva esquerdista, só que mais educado, mais culto, e imensamente mais bem formado que Soares. Além de que a vida de Cavaco é um exemplo para o país – um exemplo de ascensão social, económica e cultural baseada no esforço e no trabalho o que, nos tempos que correm, não é despiciendo.

É por isso, e para evitar que Soares ou Alegre cheguem a presidente da república que vou votar Cavaco.

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O cúmulo da lata...

Jan. 19th, 2006 | 05:51 pm

ou haverá maiores filhos da puta neste mundo que os francius?

"A França declarou na quinta-feira que estaria disposta a lançar uma ação nuclear contra qualquer país que realizasse um ataque terrorista no território francês."

Reuters, via www.oinsurgente.blogspot.com

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A melhor análise que li sobre o debate

Dec. 21st, 2005 | 04:30 pm

Ouço muita gente dizer que o Soares-Cavaco de ontem não foi interessante e não ficará para a história. Eu gostei. E parece-me existir um momento que, precisamente, ficará para a história, como o “olhe que não” de Cunhal ou o “é só fazer as contas ao PIB” de Guterres. É quando Soares, depois de atazanar o juízo do pobre Cavaco (e de todos os portugueses que assistiam à conversa) com o seu estilo rasteiro e as suas menções a palermices como “os oceanos” ou a “cidadania global” (Cavaco até gargalhou comigo neste ponto), lá lançou o “eu sei o que me diziam os meus amigos na Europa”. Nessa altura, o ecrã está dividido e vê-se Cavaco claramente a conter-se. Não a conter-se para responder à letra. Mas conter-se para não se levantar da cadeira, agarrar nos colarinhos do outro e ameaçá-lo com uma pêra bem enfiada. Como Dirty Harry: “you’ve got to ask yourself one question: do I feel lucky? Well, do you, punk? Go ahead, make my day”.
Luciano Amaral n'O Acidental (http://www.oacidental.blogspot.com)

via http://www.oinsurgente.blogspot.com

A isto resta-me acrescentar que, apesar de nunca ter gostado do Soares, reconheço a sua importância no caminho para a democracia, e ontem fiquei constrangido a ver uma pessoa com a importância de Soares chegar aquele nível de humilhação pública. Mais baixo é difícil.

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Não resistem

Dec. 6th, 2005 | 11:29 am

O Socialismo e a responsabilidade parecem cada vez mais incompatíveis. E a sra. Ministra da Educação, que parecia estar a enveredar pelo caminho certo, volta a demonstrar a sua verdadeira natureza. Depois de ter afirmado, no início do seu mandato, que os exames deixavam de fora aspectos importantes da formação, como "a oralidade e o saber fazer das crianças" (sic), volta agora à carga, eliminando exames do 12º ano. E ainda por cima, um dos exames a eliminar, é o de Português. Palavras para quê?

Estão estes governantes muito preocupados com o facto dos pobres estudantes do 12º ano terem 5 exames para fazer, coitadinhos. Eu, no final do 12º, tal como todos os meus colegas de turma, de um liceu público de Lisboa, fizemos, no mínimo, 12 exames, e ainda estamos cá para contar como foi. Talvez perdendo esse activo inestimável que é o "saber fazer das crianças", mas sobrevivemos.

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(no subject)

Nov. 22nd, 2005 | 10:40 am

Ariel Sharom decidiu demitir-se do Governo e criar um novo partido de centro direita, por forma a livrar-se dos radicais e a retomar o Road Map para a paz no Médio Oriente. Um radical, portanto.

http://dn.sapo.pt/2005/11/22/internacional/a_tenacidade_velho_general.html

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